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Nº 152, 21 de julho de 2014.
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Palavra do Presidente
Pescar terra adentro
Maurício Antônio Lopes
Presidente da Embrapa
Espalhe: investir em aquicultura, ou criação de peixes
em fazendas, gera renda, desenvolvimento social,
segurança alimentar e fortalece as exportações. Isso
ainda é mais verdadeiro no Brasil, que possui em torno
de 12% das reservas de água doce do planeta e ocupa
posição de liderança na produção de grãos, indústria
cujos subprodutos podem servir como matéria-prima
abundante para alimentar peixes.
O potencial aquícola verde-amarelo é evidente e já
chamou a atenção do mundo. O banco holandês
Rabobank, grande financiador do setor agropecuário
mundial, apontou o nosso país como futura potência
da aquicultura.
No Brasil já produzimos 640 mil toneladas de peixe
em cativeiro. Quem visita os mercados de pescado no
Ceará, por exemplo, pode escolher, à beira-mar, entre
o camarão capturado no oceano ou aquele criado em
fazendas.
O crescimento do mercado para os peixes e camarões
criados em tanques tem razões sólidas. Para quem
vende, uma vantagem da criação é a constância da
oferta. A produção do mar, extrativa, oscila com
o clima e com a intensidade da pesca. Para quem
compra, o camarão criado em tanques pode custar
metade do preço daquele que é pescado.
A aquicultura, no Brasil, é um negócio de R$ 5
bilhões, mobiliza 800 mil profissionais e envolve 3,5
milhões de empregos diretos e indiretos. Entre 2000 e
2009, o consumo anual de peixes de cada brasileiro
aumentou 30% e o de carne bovina apenas 10%. Aos
poucos, a criação de peixes e de outros organismos
da água vem tomando espaço da pesca. Quase a
metade dos peixes consumidos no mundo já não
vem desta atividade extrativa. O cultivo de peixes e
assemelhados, de água doce e salgada, perfaz mais de
43% de toda a produção de pescado no Brasil.
O consumo de pescado cresce em todo o mundo e
chegou a 10 kg/habitante/ano no Brasil. Pela primeira
vez, a produção de pescado supera a produção de
carne bovina. A pesca não é mais capaz de atender
sozinha a esse ritmo de crescimento da demanda
mundial pela proteína que vem das águas. A
Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura (FAO) prevê que, em 2030, dois terços dos
peixes consumidos no mundo virão das criações.
O Brasil tem condições excelentes para o
desenvolvimento da aquicultura. O território nacional
tem 5,5 milhões de hectares em lâminas d’água,
represadas em hidrelétricas e lagos naturais. O uso
de apenas 55 mil hectares (1%) seria suficiente para
dobrar a atual produção de pescados.
É negócio de alto rendimento. Na mesma área onde
um criador de gado obtém mil quilos de carne, são
produzidas 10 toneladas de peixe. É possível produzir
em áreas degradadas, como as de extração mineral,
em consórcio com outras atividades, inclusive
aproveitando nutrientes e efluentes (de suínos, por
exemplo). Espécies de peixe nativas como o pirarucu
crescem com velocidade surpreendente e têm um
couro cobiçado pela indústria da moda.
Na Amazônia, o pirarucu pode alcançar até 10 quilos
com um ano de cultivo. O tambaqui rende 80 quilos
por metro cúbico em tanques-rede. A africana tilápia,
cuja genética tem sido melhorada, no Brasil, nos
últimos 40 anos, pode render, em viveiros escavados,
12 toneladas por hectare.
Os benefícios da expansão da aquicultura são
múltiplos. Essa dieta de proteínas de alta qualidade
vai estar acessível a grande parte da população, pelo
aumento da oferta e redução dos preços. A produção
em pequenas propriedades pode gerar renda e garantir
a segurança alimentar nas regiões mais pobres, sem
falar que existe uma avenida de oportunidades com os
peixes ornamentais brasileiros, em que os pequenos
produtores poderiam se inserir com certeza. Além
disso, a domesticação de espécies nativas vai reduzir a
pesca, preservando a biodiversidade dos rios, lagos e
mar territorial do Brasil.
Por isso, no Brasil, aquicultura é política pública. Em
2009, criou-se o Ministério da Pesca e Aquicultura
e um centro de pesquisas, a Embrapa Pesca e
Aquicultura, em Tocantins, que forma uma grande
rede de pesquisa e inovação, com universidades,
órgãos estaduais e o setor privado. Há um Plano
Safra de Pesca e Aquicultura em curso e o BNDES já
disponibilizou mais de R$ 4 bilhões em créditos aos
produtores. Agora, o banco negocia investir R$ 45
milhões num projeto nacional de desenvolvimento de
tecnologias pela Embrapa e seus parceiros.
Há um desafio enorme pela frente. Para cada quilo que
se deseje aumentar na média de consumo nacional, é
preciso produzir mais 200 mil toneladas de pescado
por ano. Com conhecimento, políticas públicas e
espírito empreendedor o Brasil construiu a bonança
dos grãos. Com a mesma receita, certamente pode
ousar uma versão moderna do bíblico milagre da
multiplicação dos peixes.