Pecuária Sudeste
Fique por dentro
Nº 75, 18 de dezembro de 2012.
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O tempo de uma fotografia
Não era nem ontem, e nós éramos um rostinho
inocente posando para um retrato escolar. Olhinhos
apertados, espertos, ávidos por ver a vida crescer.
Crescemos nós. Já no mundo adulto, aquela foto da
escola perdeu-se em alguma caixa parda que guarda
fotografias do tempo em que elas eram reveladas.
Eram aguardadas no suspense de seu conteúdo.
Havia prazer em esperar. Fala-se disso:
_ As fotos ficaram boas?
_ Vem aqui em casa pra ver!
Diálogos dos século passado. O mundo adulto,
hoje, é cheio de pressa. Nem bem viveu-se algo, e
esse algo já foi postado em alguma rede. Desfruta de
uns segundos de visibilidade, para depois perder-se,
em memórias cibernéticas. Será que as crianças de
hoje ainda tiram fotos do tipo grupinho escolar?
Todas as carinhas reunidas, professora do lado, e um
fotógrafo gorducho mandando fazer xis. Não há
muito tempo para esperas e aguardos. Hoje, é tudo
para hoje. Será que no meio de tanta aceleração,
dá tempo de se perguntar onde estarão aqueles
meninos e meninas do nosso retrato escolar?
Caminhos que nos engolem enquanto tentamos
acrescentar alguns minutos à mais nas nossas horas
corridas, e lá se foram os nossos primeiros melhores
amigos.
A que se presta esta nostalgia? Serventia prática,
nenhuma! Pensamentos miúdos não se prestam.
Eles prezam. Prezam alguma coisa de valor que vai
se perdendo pra não se perder tempo, e que podia
‘não’.
Podia-se não perder contato com as pessoas
queridas. Podia-se responder os e-mails com muito
mais palavras. Podia-se telefonar ao invés de
encurtar tudo por sms. Podia-se ganhar da preguiça
e chamar amigos pra um jantarzinho. Podia-se
ultrapassar o tédio e organizar uma viagem. Podia-
se fazer mais visitas, pra se ver ao vivo e a cores.
Podia-se escrever uma carta, pra lembrar da própria
caligrafia. Podia-se largar mão de artificialidades
e conversar com mais vontade. Podia-se deixar
pra lá a vaidade, e expor os sentimentos com
mais verdade. Podia-se deixar o orgulho de lado e
procurar reacender os afetos congelados. Podia-se
dar um tempo aos formalismos das relações, e sair
por aí, abraçando os outros, beijando os outros,
olhando nos olhos dos outros…
Podia-se redescobrir aquele amigo, daquele tempo, e
surpreender…
Em meio à tantas metas e prazos, a gente sabe que
é na companhia do outro, na intenção e na atenção
dedicados à amizade e ao encontro que a vida
faz sentido. Sem perder tempo com as miudezas
que importam, perdemo-nos todos. Perdidos e
acelerados, periga que um dia, a gente não se ache
mais.
‘Ultimamente têm passado muitos anos.’
Rubem Braga